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Preço do boi vai continuar subindo esse ano e cria será o insumo mais caro da pecuária
Informações de peso e emoção marcam o último dia de evento sobre pecuária no RS
27/06/26
A última etapa da XXI Jornada Nespro e II Congresso de Criadores trouxe dados que os produtores esperavam com ansiedade: como deverá se comportar o mercado do boi nos próximos meses. Para trazer as informações, Alcides Torres, CEO da Scot Consultoria, e Pedro Gonçalves, analista de mercado, dividiram o palco e trouxeram dados e análises sobre os temas que mais inquietam quem produz gado no país.
Apesar das variações econômicas, o preço da carne bovina para o consumidor final não deve apresentar quedas significativas e tende a se manter valorizado. E o que provoca isso, segundo os especialistas, é a forte demanda interna. Dados recentes do mercado demonstram um cenário curioso: conforme levantamento da Scot, os cortes bovinos populares, como o acém, registraram alta de 11% desde o início do ano, e mesmo assim, o consumo não caiu. Enquanto isso, proteínas concorrentes sofreram fortes quedas, com a carne suína recuando 35% no atacado e o frango caindo 17%, sem registrar a troca da mais cara pela mais barata. Isso segundo Alcides Torres faz com que a carne bovina, que responde por 65% a 70% da produção nacional, esteja em alta. “Percebemos quando o volume de abate sob inspeção estadual e municipal aumenta”, diz Torres.
Além disso, o cenário político tem um peso determinante. “Anos de eleições presidenciais costumam injetar um grande volume de dinheiro na economia através de empregos temporários e gastos públicos, elevando o consumo, o que deve fazer as cotações subirem até 15%”, afirma. Já no cenário global, é esperado que os maiores concorrentes do Brasil reduzam sua produção. “Enquanto o mundo pisa no freio, o Brasil quebra recordes de abate e consolida sua importância internacional.”
Cria é o gargalo da pecuária
Conforme os dados apresentados na palestra da Scot Consultoria, a relação de troca para a compra de terneiros está ficando cada vez mais cara desde 1980. Alcides Torres adverte que, se os pecuaristas não mudarem o sistema de produção para melhorar a cria, a atividade caminhará para uma situação cada vez mais difícil, fazendo com que o terneiro se consolide de forma absoluta como o insumo mais caro da pecuária de corte.
Ele também traz um contexto histórico para explicar esse gargalo: na década de 1970, durante a abertura de fronteiras agrícolas no Centro-Oeste e no Norte do Brasil, as fazendas eram abertas e as crias eram produzidas "de qualquer jeito", pois aquela era a única forma de expandir as áreas na época. Hoje, no entanto, com a impossibilidade de expansão desenfreada de áreas, tornou-se fundamental investir e aplicar tecnologia na fase de cria para garantir a viabilidade e a eficiência do negócio.
A nova pirâmide alimentar e o consumo de carne
A palestra de encerramento foi da fundadora do Território da Carne, Andréa Mesquita que traçou uma linha do tempo sobre os costumes e influências sobre a alimentação humana no último século traçadas em boa parte pelo governo norte-americano. Do fomento ao consumo de cereais e até ultraprocessados, a saúde não foi o argumento para as campanhas governamentais.
Recentemente, as novas diretrizes dos Estados Unidos dão um passo atrás, priorizando a proteína na base da dieta para combater a atual epidemia de obesidade disfuncional da população. “A mudança evidencia que o consumo de comida de verdade e de carne tornou-se uma questão de saúde pública e de segurança nacional”, revela a especialista. O desafio é grande, já que as gôndolas dos supermercados estão repletas de produtos alimentícios que agem como uma "droga lícita disfarçada de comida, gerando dependência química por meio da oferta de dopamina barata proveniente de açúcares e ultraprocessados”.
O crescente uso de medicamentos injetáveis para perda de peso está desenhando uma nova tendência para o consumo de carnes. Segundo Andréa, um a cada três lares brasileiros já teve algum contato com canetas emagrecedoras, em tratamentos que podem chegar a custar R$ 4 mil mensais. Com estatísticas mostrando que 94% das pessoas recuperam o peso perdido em até cinco anos, o medo da fraqueza física deverá impulsionar fortemente a busca por dietas ricas em proteínas. O impacto disso na pecuária pode ser imenso: um aumento de apenas 30 gramas de proteína por dia na dieta de cada brasileiro exigiria uma produção adicional de 9 milhões de toneladas de carne por ano.
Para encontrar esse cenário, Andréa diz que o pecuarista precisa se perguntar “eu estou neste futuro? O que preciso fazer dentro da minha empresa rural para isso?”. Ela afirma também que o produtor precisa tomar as atitudes dentro da propriedade, e não esperar ações externas ou governamentais, agir sobre os fatores que pode controlar.
Durante a palestra, Andréa Mesquita mencionou o Fundocarne, Fundo de Promoção da Carne Gaúcha e elogiou a iniciativa por reunir produtores e frigoríficos através do Instituto Desenvolve Pecuária e Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados do RS. A presidente do Fundo (e do Instituto Desenvolve Pecuária), Antonia Scalzilli, pediu a exibição do vídeo da campanha “Carne Gaúcha é Diferente”, o que gerou emoção na plateia e no palco. Em lágrimas, Andrea pontuou sobre o propósito e a paixão sobre o universo da pecuária, mas encerrou destacando que mesmo com paixão, o racional precisa funcionar para pagar as contas.
Jornada Nespro e Congresso de Criadores 2027
O evento contou com a participação de 650 inscritos, mas 800 pessoas ao todo circularam pelo Centro de Eventos do BarraShopping Sul, entre participantes (de nove estados e também do Mercosul), organizadores e expositores. Foram 29 palestrantes em dois dias de evento, que superou, segundo os promotores, um evento que já havia sido gigante em 2025. “A carne sempre foi e continuará sendo a principal fonte de proteína para a alimentação humana e a demanda de proteína no mundo cria um mercado permanente para os próximos dez anos. E esta permanência assegura oportunidades que precisam ser alcançadas por meio de gestão e tecnologia e inovação. “O pecuarista sai deste evento de dois dias renovado para transformar o que viu em vitórias dentro da porteira, para ter melhores resultados econômicos e dar a sustentabilidade aos seus negócios”, afirma o professor Júlio Barcellos, coordenador do Nespro.
Antonia Scalzilli também comemorou os resultados do evento e disse que o recado ao pecuarista é claro. “Eu saio daqui com a certeza de que a gente precisa, enquanto cadeia, ser mais profissional. Eu tenho certeza, como pecuarista, como elo que eu pertenço, é de que nós temos que ser ainda mais produtivos, ainda mais eficientes, mais competitivos, mais lucrativos, que afinal de contas é o lado racional.”
Para 2027, a parceria entre o Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro Ufrgs) e o Instituto Desenvolve Pecuária será renovada e o evento já está sendo pensado. “Ainda não podemos dizer o que faremos, pois é muito cedo. Mas temos certeza de que será diferente”, concluiu Júlio Barcellos.
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(51) 4042-1901















