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Turra: da prefeitura de Marau à diplomacia comercial

15/09/20

Fonte: Jornal do Comércio 

 

Apontado como um grande diplomata comercial, Francisco Turra fortaleceu a representatividade da cadeia da proteína animal brasileira e se tornou a principal voz do setor da avicultura e da suinocultura no Brasil. Em agosto, deixou o comando da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) exibindo centenas de novos mercados de exportação abertos nos últimos 12 anos.

Tudo começou em 2008, quando passou a articular melhor o setor em torno de uma entidade única, unindo a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frangos (Abef), a União Brasileira de Avicultura (Ubabef) e somou com as forças do setor da suinocultura - com a Associação dos Produtores e Exportadores de Carne Suína (Abipecs) - formando a ABPA. 

A presidência da associação ele deixou ao cargo do conterrâneo marauense Ricardo Santin, e agora passa a reduzir o ritmo de trabalho, mas segue no comando da presidência do conselho da entidade. A política, garante, ficou para trás - foi prefeito de Marau, deputado estadual e também federal, presidente do Banrisul e ministro da Agricultura. Agora, além do conselho da ABPA, se dedicará a algumas consultorias e palestras - e principalmente aos sete netos. É o que confidencia ao Jornal do Comércio nesta entrevista.

Jornal do Comércio - No cenário da pandemia, como as operações do setor de frigoríficos estão sendo afetadas, já que muitas plantas foram fechadas desde o início da crise sanitária? É um setor que concentra mão de obra intensiva. Faltou adotar medidas de segurança desde cedo?

Francisco Turra - Entramos nessa pandemia e distanciamento social no dia 12 de março, e já começamos convocados a produzir alimentos. Isso é fundamental. O coronavírus é uma coisa absolutamente desconhecida até dos cientistas, não tem vacina definida e não havia protocolo nenhum, remédio nenhum para ninguém. Começamos hiper bem e aí fomos ajustando o protocolo, validando com o Hospital Albert Einstein até sair um decreto interministerial para ajustar tudo. Nós temos 200 frigoríficos trabalhando no Brasil e 500 mil trabalhadores. Alguns frigoríficos tendo que cuidar mais porque tiveram casos recentes, é óbvio, mas estamos até aumentando a exportação e não faltou produto na mesa de ninguém, nem aves, nem suínos e nem ovos. O vírus é desconhecido, desafia todos nós. Hoje parece que tudo está normal. Amanhã já aparece alguma coisa atrapalhando. Já há registro de recaídas. Então, tudo é novidade sobre um vírus desconhecido e implacável.

JC - Apesar dessas questões, o frango é o produto do agronegócio brasileiro que chega ao maior número de países no mundo. Como se consegue ser tão competitivo, atravessar oceanos, chegar a mercados do outro lado do mundo com preço ainda atrativo?

Turra - O Brasil, para produzir proteína animal, é uma dádiva. Aqui nós temos soja, milho, clima, mão de obra, tudo, diferentemente da China, que precisa importar soja para produzir farelo para produzir os frangos, com custo muito maior. Temos mais de 160 mercados par aves e 70 para suínos porque corremos muito atrás e percorremos o mundo inteiro. Não há porta que nós não batemos para abrir para o frango brasileiro. E até onde não dava amistosamente (em países que fecham os mercados sem justificativa). Nós abrimos em 12 anos, por exemplo, o mercado chinês, Índia, Paquistão, Coreia do Sul, Japão para suínos, Tailândia, Vietnã, e muitos outros. Em Estocolmo, por exemplo, no melhor restaurante que eu estive, em negrito estava escrito: "peito de frango brasileiro". Somos um país tropical e geramos produto com uma qualidade muito superior. 

JC - Migrando às questões políticas: o senhor foi prefeito de Marau, deputado e se tornou ministro. Inclusive é chamado por alguns de ministro apesar de ter ficado somente 16 meses no cargo (entre 1998 e 1999) pelo elogiado trabalho que fez. O senhor agora regressa para a política?

Turra - Não, a política deixei para meu filho, Sérgio, que hoje é deputado estadual (pelo PP). Não há nenhuma possibilidade de voltar, mas vou continuar, digamos, sendo consultor e ajudando meu País exatamente no agronegócio, que é o que eu entendo e gosto. O meu interesse é ajudar o País e principalmente no campo em que aprendi, compreendi e me dei bem que é na iniciativa privada da proteína animal.

JC - No caso da retirada da vacina da aftosa no Rio Grande do Sul, que está em trâmite, qual é o potencial que tem de agregar mais negócios para o Estado?

Turra - Não tenha dúvida dos ganhos. Quando eu fui ministro conseguimos dividir o Brasil em circuitos, porque não dava para liberar o País todo. Era impossível, demoraríamos 30 anos, então dividimos em regiões dentro do Brasil. Liberamos Rio Grande do Sul e Santa Catarina, voltou a febre aftosa no Rio Grande do Sul, e houve um estrago total. Santa Catarina teve um status diferenciado e influi nos seus negócios. Se você tem a vacina contra a febre aftosa, na OIE (Organização Mundial da Saúde Animal) a imagem é que você é não cuida adequadamente da sanidade. Para carne suína, principalmente, e para a carne bovina, com a retirada o Rio Grande do Sul, junto com Santa Catarina e Paraná, formaremos um "país" diferente. Será um espaço precioso no mundo para venda de proteínas exatamente por isso. Por exemplo, no México eu tentei abrir para carne suína. A única colocação que fizeram: "não vamos abrir porque vocês vacinam para febre aftosa, e se vocês vacinam é porque têm medo e há a doença", e não abriram até hoje. Certamente, logo que o Estado for validado na OIE, como Santa Catarina já é, e o Paraná está conosco, seremos 70% da produção de carne suína do Brasil em regiões sem vacinação. E na carne bovina também vai ser muito diferente do que é hoje o mercado.

JC - Que recomendação o senhor daria, por exemplo, para produtores de alta genética, que temem que um abate sanitário possa trazer prejuízos grandes para a atividade.

Turra - Esse temor independe de estar vacinando ou não, porque nem sempre todo mundo vacinava tudo, digamos. Em muitos casos já foi explicitado que não havia essa consciência de vacinar todo o rebanho. Porque aconteceu, lá atrás, o caso de Joia? Alguém inescrupulosamente fez contrabando de gado paraguaio. Se alguém inescrupulosamente traz gado ou gene de algum local onde há, complica a nossa vida, isso tendo ou não tendo vacinação. Há 20 anos, na região inteira não tem foco nenhum, então, por que vacinar? É um custo elevado e uma perda enorme de imagem para o Brasil lá fora.

JC - Na questão mais geopolítica de comércio, como o senhor avalia eventual acordo entre Mercosul e União Europeia? Há alguma chance de real entendimento, e o que mudaria em um cenário de expansão de mercado?

Turra - Para proteína animal e para agricultura quem será beneficiada é a União Europeia. Ela está se equivocando em não fechar esse acordo. Eles poderiam ter uma presença forte aqui para processar, criar produtos novos porque têm uma expertise grande nisso. Na carne suína, temos 30 produtos embutidos no Brasil. Eles têm 300. Poderiam fazer parcerias, mas estão jogando for a uma grande oportunidade. E não diria que se não houver acordo nós vamos perder, até porque, com a omissão deles, nós entramos forte no mercado asiático, o grande mercado do mundo. Não é que eles não sejam importantes. O Brasil precisa de muitos acordos e a União Europeia é essencial, mas eles estão equivocados em criar tantas barreiras para não fazer o acordo por bobagens. Eles teriam de olhar o futuro, porque é um continente paralisado, não têm crescimento populacional, não têm crescimento de renda como nós imaginamos, não são tão atraentes como já foram. Deveriam buscar parceiros que têm espaço para produzir como é o Mercosul todo. Então, o grande equívoco, Brasil está sendo desdenhado. Falta consciência de que o Brasil é produtor de alimentos para o mundo, e eles estão perdendo oportunidades.

JC - Nestas questões de política internacional, o governo brasileiro também poderia ajudar mais na construção de um acordo, com diferentes países. Porque há algumas manifestações contra Argentina, contra o Mercosul, contra a própria China também, não?

Turra - Acho que a boa relação com os países é fundamental. Um país não tem amigos, tem interesses, e a gente deve que ter postura, tem que ter permanente dignidade no trato com todos os países. Isso eu prego sempre, independentemente de ideologia, acho que temos de conservar a amizade e abrir caminhos, abrir espaços para fazer negócios que são importantes para ambos, em algum setor. Eu posso ir um país aparentemente pequeno, Panamá, e encontrar lá um filão enorme para venda de determinado produto, e eles para o Brasil. Nós importamos camarões, produtos preciosos de países centro-americanos, então podemos exportar mais produtos para lá. Temos uma gama enorme de produtos para exportar, e é assim que eu vejo a relação dos países.

JC - O senhor foi bastante diplomático nesta reposta, levando em conta os muitos conflitos já gerados pelo governo federal nesta área, não?

Turra - Tem que ser assim. Por força da necessidade temos de manter ativos para os nossos negócios, a gente não deixa de avisar nunca a Teresa Cristina quando sentimos que há alguma coisa equivocada em relação a Oriente Médio, por exemplo, principalmente com Israel, como se falou na mudança de capital etc., assim como atritos com a China, a Europa. Todos os países. Quando há alguma coisa que a gente vê problemas, o nosso canal é a ministra Teresa Cristina, para diplomaticamente mudar as coisas.

JC - Sobre a tendência da indústria que o senhor representa, como avalia a proteína vegetal no horizonte. A indústria da proteína animal deve avançar neste setor, até por conta do potencial de mercado?

Turra - Ser vegetariano é uma opção que você tem, de não comer carne por uma questão de saúde, é o que fala o vegetariano. O vegano já tem outra filosofia, não quer porque defende reservar o animal vivo, é contra o abate, é a favor do bem estar animal. São conceitos, ao meu modo de ver, discutíveis, porém, faz parte da liberdade que se deve preservar. Mas o que quero dizer é que não está crescendo a indústria de produtos veganos, vegetarianos. Até a nossa indústria chegou a fazer um hambúrguer de vegetais, não deu bem e teve que recuar. Outras também fizeram essa experiência e não há público suficiente. Mas há liberdade, se eu quiser chegar num supermercado e passar longe da carne, da proteína, da gôndola da ave, da carne suína, eu tenho liberdade para fazer, mas não significa que é a maioria que vai para esse caminho. Ao contrário, o sabor da proteína animal é diferenciado, aquela carninha em um fim de semana, um franguinho, carne suína, um peixe. Isso é uma coisa maravilhosa. Não é tão fácil substituir a proteína animal.

JC - O senhor se afasta um pouco das atividades executivas da ABPA, mas segue no conselho da entidade. E agora deve dar algumas consultorias e palestras, e já confidenciou que quer conviver mais com os netos. O projeto é ficar mais com a família?

Turra - Exatamente, porque há 20 anos fui deputado estadual, dois anos de Conab, mais 16 meses no ministério da agricultura, fiquei longe, com minha família morando aqui Marau, Porto Alegre. Já está dividida há muito tempo. Eu tenho quatro filhos e sete netos, então se for somar nós, já somos 17, e eu vou passar a curtir isso um pouco. Há alguns anos eu tive um problema de pressão, houve um desbalanceamento por força de circunstancias de trabalho. Estávamos em plena crise no setor, e eu visto a camisa, executo com muita paixão tudo que faço. Era o episódio da Operação Trapaça, que me incomodou demais, então eu comecei a ter problemas de pressão, não tinha como cuidar e quando vi estava já no Albert Einstein, exilado por lá, onde fiquei 40 dias internado, nove dias de UTI, passando bastante mal. Voltei inteiro. Pude me recuperar e com força. Alguém até me perguntou se sai da presidência da ABPA por estar doente. Graças a Deus sai porque estou bom. E quero ter um tempo melhor para viver.

Perfil
Advogado e jornalista, Francisco Turra, que completa 78 anos no próximo dia 16, começou a carreira política em Marau, no norte gaúcho, entre os anos 1970 e 1980, filiado ao PDS, hoje PP. Primeiro, como vice-prefeito (1976 -1982) e, depois, prefeito de Marau (1983 -1985). A boa gestão e a forte liderança regional o levaram à Assembleia Legislativa por mais de um mandato: foi deputado estadual entre 1987 e 1991 e reeleito, permaneceu na casa até 1995. Ainda nos anos 1990, foi presidente do Banrisul e se consolidou como gestor público em cargos executivos de diferentes entidades, como Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul e Companhia Nacional de Abastecimento. Foi eleito deputado federal em 2002. Antes, entre 1998 e 1999, ocupou o cargo de ministro da Agricultura, em uma passagem marcante de 16 meses pela Esplanada, em Brasília. Com uma gestão elogiada por ações que ajudaram a expandir as fronteiras do agronegócio no mercado internacional, até hoje há quem o chame de ministro. Depois, abraçou totalmente a causa em defesa da proteína animal brasileira e foi o principal mentor da criação da ABPA.

Fonte da imagem: ABPA/DIVULGAÇÃO/JC


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